quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Fardo

Borges era de uma beleza que espancava
Ora minha cara,
Ora meu coração,
Ora a alma.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

10/09

Querido Leopardo,

Há quanto não mando notícias... mas estou sentado no boteco da rua do centro, e seria quase um crime não avisá-lo: Eu sinto a vida. Sinto aqui. Sinto e senti ontem, quando acordei às pressas pra tomar o ônibus. Ainda me sinto sufocado, por certo que sim, e é algo como fosse tentando voltar. O sítio já foi o que eu quis, mas muita coisa hoje é só saudade. Aqui talvez me sinta mais pleno por causa do suor. Tudo aqui é suor, tão  suor e restrição, que uma árvore na frente de casa é quase poesia. Além do mais, quem disse que a vida não ressurge do marasmo?
não que eu não queira estar em casa, pertinho do pasto e do barreiro cheio, mas tudo isso também é minha vida: o viaduto, a BR duplicada... ou talvez não. Talvez tudo isso foi e venha sendo um presságio de que a vida seria difícil. A minha e a da moça do Lojão das portas. A paisagem da vista pro asfalto deve ser triste no pingo do meio dia, coitada. Mas destinado a aceitar o fardo, tento me acomodar sempre no meu colchão ou na sala de algum consultório, ou no banco de alguma praça. É inútil. Sou estrangeiro no meu lar e em toda parte. Talvez seja hora de me estabelecer, ou eu não tenho o propósito arrogante de SER. É preciso agarrar a vida como a um agasalho no frio, mas meu braço de agarrar o mundo nasceu amputado. Ainda assim é preciso desabafar, mas o quê? algo dentro ou fora de mim há que ser honesto e limpo, então eu tento acariciar algumas pessoas com essas tristezas. É o que sou, não é? o que você diria? lhe escrevo com o propósito  de receber uma ajuda sua e das crianças. Como vão todos? Apesar de tudo e qualquer coisa, eu estou bem. Mateus 11:28, caso esteja duvidando de algo.
Aqui vou morrer. Ou não...
A sentença é o cultivar da dúvida, o eterno cultivar da dúvida. Às vezes penso em andar sem rumo sob o Sol, mas aqui, não importa o quanto eu ande, nunca há ermo. Sinto vontade de ligar pra casa e dizer que estou triste, mas sento no boteco da rua do centro e o estigma do perigo da cidade cessa. Duas senhorinhas sentadas na mesa 5: deixo de lado qualquer coisa na vida, menos sentar e almoçar do lado dessas senhoras. Gosto de dividir a mesa com elas, pensar a vida mastigando sem sentir, sem ter como, engolir o feijão inteiro. Não sentamos exatamente na mesma mesa, nem essas senhoras me dão a mínima, mas o lugar é pequeno e a distancia é muito curta entre todos nós, e isso me alegra. É daí que a vida ressurge. Talvez tenha encontrado, agora, a salvação que procuro nas cartas endereçadas a você, Leopardo. Mas não.
Não moro na maior cidade do mundo, mesmo assim o medo existe. Atravessar a avenida me deixa triste. Olho pros meus pés: aonde vão? e se vão, vão sem mim e sem por quê. A vontade é de ligar pra casa e dizer que sou triste, mas é Domingo.
Há que se ter uma ideia, um plano, uma fuga! Até um sapo tem uma  ideologia, mas eu vivo como um pássaro com um papo cheio de vento e não vejo a solução em nada. A realidade é um passo fundo, meu querido Leo. Todos a tudo me conhecem, mas desconhecem.
Eu sou em mudo. Sou o papel com o apelo distribuído a cada passageiro. Eu sou o pedido de esmola silencioso no ônibus. Eu sou, Leopardo meu doce e querido amigo, meu grande e saudoso amor, um libertário do avesso com as réstias pro lado de dentro da própria alma. Onde está, de fato, meu tempo? arrefeceu em algum lugar. Você talvez pudesse me ajudar e mandar meu abraço a todos. Sinto muitas saudades, e sentir é sofrimento, mas um dia sofro tanto que esqueço.

Deixei o selo pago. Aguardo. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Gritinho

Por do Sol,
queridinha
às vezes não revela
sossego.

Anoiteceu
perdi amor
a todo meu apego:

Por teu socorro
gritei
de-ses-pe-ra-da-men-te
em grego...

terça-feira, 29 de outubro de 2013

cançãozinha de saudade


O teu rosto tem do lixo,querida
A forma da incineração
Digo porque sou um bicho
   [e não sei me defender
   desta condição]
Teu peito aberto é solo amigo
Um barreiro sortido de pastas
É doce o teu afago
Mas tens um gosto amargo
Quando te afastas...

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

cumpleaños

1985,
21
do mês quarto
meu amor é tão antigo
quanto a dor de parto

sábado, 24 de agosto de 2013

Gangungo, 13 de Setembro


Saudações sem fim,


Querido Leopardo, é com absoluta nostalgia que pergunto como anda você.
Trago novidades desde o Natal: a loja não vai tão bem como em Novembro, embora não seja esse o real motivo desta. Gostaria mesmo era de ser como os elefantes e partir quando tudo vai triste, porém, tudo na vida é entender, é uma questão de ordem ou de lógica, mas deixo por sua livre interpretação.
Tenho plantado em minha casa um pé de manga por dia, dizem que dá sorte quando cresce, só que  ainda não compreendi, meu querido, eu não entendo o mundo, não entendo as coisas, eu não entendo a sequência das coisas. Eu sou, Leopardo, um perdido. Às vezes, pouco antes de dormir, eu penso que a Ana morreu. Mas onde ela estaria agora? Deus a está castigando ou ele a estaria  santificando neste preciso momento? São várias, meu saudoso amigo, as intrigas, as dúvidas, as penas. A memória se perde quando morremos? "não estejais ansiosos por coisa alguma", contudo, se sou paciente, esqueço, pereço. Pra mim, a questão é de localização, de reconhecer o lugar pra se estar, mas os meus pés têm asas. A minha alma flutua sem saber pra onde vai. Você compreende, Leo, a inocência? ou devo dizer ignorância? por isso não sei e por isso a omissão nas brincadeiras de manja. Eu não sabia o que era coerência, meu querido, e lhe peço perdão a vida toda se você me abrir essa brecha. Minha alma toda vida flutuou sem saber pra onde quer ir, e é sempre outro lugar que não o que estou agora. Não há caminhos para a volta, meu amigo. Em tudo sou falho, desde o meu acordar. O que haverão de me confiar e por quê?  Este mundo não é meu. Nada é meu. Meus pés caminham sozinhos sem saber se querem chegar ou não em algum lugar. Há um travo na minha goela, há um demônio na minha cabeça e eu me perco, perco tudo até as chaves da minha casa, perco o ônibus e as horas, perco minhas roupas. Eu não lembro onde deixei o meu rádio antigo. Tenho olhos, mas não enxergo, eu minto assim como quando mentia que tinha feito a lição de casa ou que havia acompanhado o ditado, na 2ª série. Quero correr, mas tenho medo, quero morrer e é segredo. Eu não caibo em mim, mas não é uma questão de transbordar. Eu não caibo por folga, por sobra. Às vezes sinto que não penso, às vezes não sinto nada, e neste momento, nem isso nem aquilo. E para onde hei de ir quando não estou? serei eu um dos escolhidos ou serei só um esquecido na grande procissão de Deus?
Perdi as contas de quando quase morro no meio fio de uma parada de ônibus, num arrastão na feira, num atropelamento na Agamenon, num suicídio do 4º andar do Rafaela. Todos os dias eu desisto, meu amado amigo, e você conhece isso tão bem quanto eu. Não sei dizer as horas, não sei dar informação na rua, não posso chegar na minha casa, porque estou perdido, e morre-se um pouco ao se perder nas pequenas coisinhas do dia a dia. Por isso estou mandando este apelo pra você me socorrer. Estou implorando um conforto, Leopardo. Eu sou um doente, a minha alma tem um câncer.





Responde, pago o selo.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Manhãzinha

Acordo
E ainda é ontem,
Minha casa ainda existe.
Tenho pernas para a rua
E olhos pro horizonte
Mas sou triste.