Quando nasci,
nem anjo torto
ofereceu-me companhia
ganhei por primeiro presente
uma caixa de sementinha
qual o quê,
a piada
era plantar todo dia.
Coitado de quem acredita
que milho engorda galinha
a gente não colhe só o que planta
tem também as ervas daninhas.
Quem recolhe as migalhas na calçada
Sabe como tratar uma dor
Nas mãos, as palmas arrancadas
Misturam o sangue à terra, ao pó
Quem arrega um amor, é pá virada
Só anda na estrada
Que o outro já andou
Pois resto de amor é coisa fraca
Fina, frágil, embaraçada
A pele da flor.
Até ontem, era o eterno Nó de marinheiro na ponta do mar O futuro é sempre incerto Verão numa cena de inverno Porta de ferro, sem casa pra entrar A hora exata? A hora exata não tem forma Nem é certo o ponto de ser Como pode do sol cair chuva E uma chama na água arder? Mas se é esperança... Ah, na esperança é tudo redondo. A espera é um calmante Hediondo.