Chuvinha
Tristeza Matutina:
Rua Caldeiroso Prêito
Tudo termina
Tudo termina,
Querida
Dentro dos teus peitos
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Heloísa 1972
A calma
não se faz
comprida
nem os pesares
às almas medem
gostaria
de só falar-te
sobre os ventos
que se sucedem
mas prefiro, contudo,
dizer-te,
querida,
que teu corpo,
que teus olhos
fedem.
não se faz
comprida
nem os pesares
às almas medem
gostaria
de só falar-te
sobre os ventos
que se sucedem
mas prefiro, contudo,
dizer-te,
querida,
que teu corpo,
que teus olhos
fedem.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Despedida
Querido Leopardo
Me endereço a você
Mas hoje estou tão falido
Tão inflamado, que posso morrer
Toda manhã me nasce o dia
Como quem esfria
Mas que posso fazer?
Como pode do mar nascer chama
E uma brasa na água arder?
O vento passa ventando
Um coelho passa correndo
Um remo passa remando
Uma carne passa moendo
Diante disso eu nada tenho feito
vou-me embora lhe dizendo
Minha alma tomou veneno
Está só esperando o efeito.
Me endereço a você
Mas hoje estou tão falido
Tão inflamado, que posso morrer
Toda manhã me nasce o dia
Como quem esfria
Mas que posso fazer?
Como pode do mar nascer chama
E uma brasa na água arder?
O vento passa ventando
Um coelho passa correndo
Um remo passa remando
Uma carne passa moendo
Diante disso eu nada tenho feito
vou-me embora lhe dizendo
Minha alma tomou veneno
Está só esperando o efeito.
domingo, 29 de dezembro de 2013
Querida Jaborandinha
Neste bilhetinho a minha vontade é enchê-la de carvão. Meu lenitivo imaginário sempre foi encher a sua cara de carvão como fazem os torradores de castanha de caju em pleno verão quando as castanhas secas estão no ponto pra serem queimadas e vendidas na beira da pista. Minha doce e querida florzinha cultivada no meu quintal e regada mês em mês, tens um rosto tão suave que mais me lembra um açude em tempo de chuva. Tudo em ti é chuva, é inverno, é verão, é o calor do fogo torrando castanha, é um brilho de gliter no carnaval, um cheiro de flor-de-sapo, um som de Anum. Teu rosto é sinestésico. Tua alma é sinestésica. Tu és uma doce confusãozinha que redemoinha minha cabeça, só a tua partida que não.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Leo
Meu saudoso e inconstante cordeirinho,
penosos como as águias no por do sol são teu suor, tuas unhas cortadas e teu desterro. Hoje juntando lavagem para os porcos recordei você e os caroços de fava contadinhos no nosso velho e enferrujado depósito. Todo os dias a lembrança anda, todos os dias a natureza e o som genuíno do vento andam, e tu és, querido, como uma "váge" de capim depois da chuva, encoberta por botõezinhos de acerola que despencam das aceroleiras ou por flor-de-sapo, e não há um só dia em que eu toque o vermelho cádmio ou o verde pinheiro e não lembre das tuas vestes, da tua resta na janela...
Não há uma tarde que se passe sem sobejo da lembrança da tua boca de sede nos copos de cristal. Eu o amo até hoje, e tua morte( que ocorre como uma morte), ainda é um cancro na minha alma.
meu coração pressente o fim dos tempos neste selo.
penosos como as águias no por do sol são teu suor, tuas unhas cortadas e teu desterro. Hoje juntando lavagem para os porcos recordei você e os caroços de fava contadinhos no nosso velho e enferrujado depósito. Todo os dias a lembrança anda, todos os dias a natureza e o som genuíno do vento andam, e tu és, querido, como uma "váge" de capim depois da chuva, encoberta por botõezinhos de acerola que despencam das aceroleiras ou por flor-de-sapo, e não há um só dia em que eu toque o vermelho cádmio ou o verde pinheiro e não lembre das tuas vestes, da tua resta na janela...
Não há uma tarde que se passe sem sobejo da lembrança da tua boca de sede nos copos de cristal. Eu o amo até hoje, e tua morte( que ocorre como uma morte), ainda é um cancro na minha alma.
meu coração pressente o fim dos tempos neste selo.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
10/09
Querido Leopardo,
Há quanto não
mando notícias... mas estou sentado no boteco da rua do centro, e seria quase
um crime não avisá-lo: Eu sinto a vida. Sinto aqui. Sinto e senti ontem, quando
acordei às pressas pra tomar o ônibus. Ainda me sinto sufocado, por certo que
sim, e é algo como fosse tentando voltar. O sítio já foi o que eu quis, mas
muita coisa hoje é só saudade. Aqui talvez me sinta mais pleno por causa do
suor. Tudo aqui é suor, tão suor e restrição,
que uma árvore na frente de casa é quase poesia. Além do mais, quem disse que a
vida não ressurge do marasmo?
não que eu não queira estar em casa, pertinho do pasto e do barreiro cheio, mas tudo isso também é minha vida: o viaduto, a BR duplicada... ou talvez não. Talvez tudo isso foi e venha sendo um presságio de que a vida seria difícil. A minha e a da moça do Lojão das portas. A paisagem da vista pro asfalto deve ser triste no pingo do meio dia, coitada. Mas destinado a aceitar o fardo, tento me acomodar sempre no meu colchão ou na sala de algum consultório, ou no banco de alguma praça. É inútil. Sou estrangeiro no meu lar e em toda parte. Talvez seja hora de me estabelecer, ou eu não tenho o propósito arrogante de SER. É preciso agarrar a vida como a um agasalho no frio, mas meu braço de agarrar o mundo nasceu amputado. Ainda assim é preciso desabafar, mas o quê? algo dentro ou fora de mim há que ser honesto e limpo, então eu tento acariciar algumas pessoas com essas tristezas. É o que sou, não é? o que você diria? lhe escrevo com o propósito de receber uma ajuda sua e das crianças. Como vão todos? Apesar de tudo e qualquer coisa, eu estou bem. Mateus 11:28, caso esteja duvidando de algo.
Aqui vou morrer. Ou não...
A sentença é o cultivar da dúvida, o eterno cultivar da dúvida. Às vezes penso em andar sem rumo sob o Sol, mas aqui, não importa o quanto eu ande, nunca há ermo. Sinto vontade de ligar pra casa e dizer que estou triste, mas sento no boteco da rua do centro e o estigma do perigo da cidade cessa. Duas senhorinhas sentadas na mesa 5: deixo de lado qualquer coisa na vida, menos sentar e almoçar do lado dessas senhoras. Gosto de dividir a mesa com elas, pensar a vida mastigando sem sentir, sem ter como, engolir o feijão inteiro. Não sentamos exatamente na mesma mesa, nem essas senhoras me dão a mínima, mas o lugar é pequeno e a distancia é muito curta entre todos nós, e isso me alegra. É daí que a vida ressurge. Talvez tenha encontrado, agora, a salvação que procuro nas cartas endereçadas a você, Leopardo. Mas não.
Não moro na maior cidade do mundo, mesmo assim o medo existe. Atravessar a avenida me deixa triste. Olho pros meus pés: aonde vão? e se vão, vão sem mim e sem por quê. A vontade é de ligar pra casa e dizer que sou triste, mas é Domingo.
Não moro na maior cidade do mundo, mesmo assim o medo existe. Atravessar a avenida me deixa triste. Olho pros meus pés: aonde vão? e se vão, vão sem mim e sem por quê. A vontade é de ligar pra casa e dizer que sou triste, mas é Domingo.
Há que se ter uma ideia, um plano, uma fuga! Até um sapo tem uma ideologia, mas eu vivo como um pássaro com um papo cheio de vento e não vejo a solução em nada. A realidade é um passo fundo, meu querido Leo. Todos a tudo me conhecem, mas desconhecem.
Eu sou em mudo. Sou o papel com o apelo distribuído a cada passageiro. Eu sou o pedido de esmola silencioso no ônibus. Eu sou, Leopardo meu doce e querido amigo, meu grande e saudoso amor, um libertário do avesso com as réstias pro lado de dentro da própria alma. Onde está, de fato, meu tempo? arrefeceu em algum lugar. Você talvez pudesse me ajudar e mandar meu abraço a todos. Sinto muitas saudades, e sentir é sofrimento, mas um dia sofro tanto que esqueço.
Deixei o selo pago. Aguardo.
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